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Corticoide NÃO é “xarope prá tosse”!

Frequentemente, atendo crianças que estão tomando algum tipo de xarope para “tratar” tosse e, geralmente, este xarope é à base de corticoide (ou corticosteroide).

Neste texto, vou abordar: de que se trata esta medicação, quais seus efeitos no organismo (a curto e longo prazo) e quais as doenças respiratórias mais comuns em que são formalmente indicados.

 

Corticóides: o que são?

Os corticoides são hormônios produzidos, naturalmente, pelas glândulas suprarrenais, ou, sinteticamente, em laboratório, a partir desses hormônios.

Os corticoides são divididos em 2 grupos: os glicocorticoides e os mineralocorticoides, sendo o primeiro de interesse neste texto.

Os glicocorticoides têm ação Anti-inflamatória e Imunossupressora, sendo chamados, também de Anti-inflamatórios Esteróides. O Cortisol representa o principal corticoide produzido pelo organismo e a Prednisolona, o representante sintético mais usado em pediatria em forma de xarope. Além disso, dentre os xaropes sintéticos, tem-se a Dexametasona, a Betametasona.

Os corticoides sintéticos são excelentes medicações indicadas para processos inflamatórios graves, como em alguns tipos de pós-operatórios e doenças autoimunes – dependendo do seu grau – como o Lúpus Eritematoso Sistêmico, como tratamento para certos tipos de câncer – tal qual um quimioterápico – e para o controle de rejeição a órgãos transplantados.

Apresenta, também, efeito “antialérgico”, sendo uma medicação muito utilizada em casos de Rinite Alérgica e Asma Brônquica (“bronquite”), com ótimos resultados no tratamento preventivo de crises e para o resgate de crises (ver abaixo).

Assim, possuem um amplo espectro de atividade no organismo. O que vai determinar o efeito desejado para cada terapia é a dosagem diária da medicação. Quanto mais alta, maior o efeito imunossupressor.

Outro fator determinante é a via de uso. Tanto a via oral (xaropes e comprimidos), quanto a endovenosa, são considerados de “uso sistêmico”. Isto quer dizer que os efeitos terapêuticos e colaterais se potencializam. Por isso, a indicação deste tipo de medicamento deve ser bem precisa.

Por exemplo: em uma crise de Asma grave, onde a criança não melhora com o uso periódico de broncodilatador (Salbutamol), na Unidade de Pronto Atendimento, o uso de Prednisolona via oral, ou metilprednisolona endovenosa, é capaz de salvar a vida da criança.

O uso tópico se caracteriza por menores chances de efeitos colaterais. Geralmente, são usados via spray nasal e aerossol (bombinhas), pomadas e cremes. Para o tratamento de Rinite Alérgica, usa-se corticoide nasal por período prolongado, com o objetivo de se evitar novas crises que causam desconforto e, muitas vezes, prejuízos na qualidade de vida da criança.

Desta forma, quando bem indicados, a relação risco x benefício costuma ser favorável, onde o efeito terapêutico supera os potenciais efeitos colaterais.

“E quais são os efeitos colaterais?”.

 Como dito, os corticoides, principalmente os sistêmicos, têm efeito no corpo todo – lembre-se que são derivados de um hormônio produzido pelas Suprarrenais. Já os de uso tópico, apresentam efeitos colaterais de menor impacto.

Iremos abordar os efeitos colaterais mais frequentes em se tratando de uso sistêmico prolongado (mais de 21 dias)1, como os xaropes:

  • Estômago: aumentam a produção de ácido gástrico, predispondo à gastrite e úlcera.
  • Ossos: em crianças, interferem negativamente em seu crescimento e, em adultos, o uso de corticoides é fator de risco para osteoporose.
  • Rins: aumentam a reabsorção de sal e água, resultando em aumento da pressão arterial.
  • Imunidade: são capazes de interferir no bom funcionamento dos glóbulos brancos do sangue, responsáveis por nossa defesa contra micro-organismos invasores.
  • Metabolismo da glicose: promovem aumento da glicemia, predispondo a pessoa ao Diabetes.
  • Olhos: predispõem o surgimento de Catarata.
  • Pele: pomadas/cremes, usados por longo período, adelgaçam a pele, prejudicando a proteção cutânea natural.

“Mas, se apresentam tantos efeitos colaterais indesejados, por que são utilizados frequentemente?”.

Para isto, devemos analisar…

 

Indicações para doenças respiratórias mais comuns:

Como dito, os corticoides são indicados para casos de Rinite Alérgica e Asma Brônquica e, tanto uma, quanto outra, podem se manifestar com tosse.

Para ambas as doenças, os corticoides, em casos de crise, são indicados quando essas são classificadas em graves2,3. Especificamente, no caso da Asma, espera-se que, para indicar o uso de Prednisolona, a criança tenha ficado em observação, em Unidade de Pronto Atendimento, por pelo menos 3 a 4 horas recebendo puffs de Salbutamol periódicos.

Portanto, dada a seriedade dos efeitos deste tipo de medicação, corticoides não são – e não devem ser usados como – “xaropes para tosse”, simplesmente. Evite comprá-los, espontaneamente, em farmácias. Use, somente, sob prescrição médica adequada.

 

Primum non nocere (primeiro, não prejudicar – princípio Bioético).

 

Referências:

  1. De Oliveira, Elise Botteselle. Paciente em uso prolongado de corticoide oral: quando/como fazer a retirada gradual? Disponível em: <https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/corticoide-oral/>. Acesso em: 20 dez 2017.
  2. Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2017. Available from: www.ginasthma.org
  3. Solé, Dirceu; Sakano, Eulalia. III Consenso Brasileiro sobre Rinites – 2012. Bras Jour of Otorhino – São Paulo, 2012.
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